
Ela tem "apenas" 93 (noventa e três) anos de idade e 65 (sessenta e cinco) de magistério. CLEONICE BERARDINELLI, a "DONA CLEO" ou a "DIVINA CLEO", como é conhecida entre colegas e alunos, é a maior especialista em literatura portuguesa no Brasil.
Professora da PUC e UFRJ, a nossa personagem é dona de uma memória prodigiosa e invejável vitalidade, o que já inspirou até mesmo crônicas de MANUEL BANDEIRA e DRUMMOND. Autora de obras sobre LUÍS DE CAMÕES e FERNANDO PESSOA, ela aparece como favorita absoluta para ocupar a cadeira número 08 (oito) da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - ABL, que está vaga desde a morte de ANTONIO OLINTO.
Ela nasceu no Rio de Janeiro mas teve acompanhar o pai, militar, que foi morar em São Paulo. Formou-se em 1938 pela USP. Até hoje mantém intacto o encanto de ter nas mãos um bom livro. “O prazer de ler um texto é destrinchá-lo, buscar quais as intenções do autor”, ensina. A literatura portuguesa é o seu campo de trabalho e, para os que querem desvendar seus fundamentos, ela sugere três autores: CAMÕES – especialmente Os lusíadas –, EÇA DE QUEIROZ e JOSÉ SARAMAGO.
Os quase 100 (cem) anos não tiraram sua vivacidade. Aos que, diante de tanta paixão pelo que faz, duvidam que tenha idade tão avançada, ela observa. “Isto é porque eu convivo com gente moça”, explica. “As pessoas da minha idade afobaram-se e morreram antes de mim.”
CLEO já orientou mais de 100 (cem) dissertações e teses - atualmente são 04 (quatro) na PUC e 01 (uma) na UERJ - e foi eleita a personalidade cultural de 2009 pela UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES. No próximo mês de novembro estará ministrando um curso na CASA DO SABER.
Porém, mais lindo que tudo isso junto foi o que ela respondeu à REVISTA O GLOBO (nº 270 - 27/09/2009) quando lhe foi perguntado por que ela "continua a dar aula, aos 93 anos?
"Adoro minha profissão. Dou aula porque quero e porque me recebem de braços abertos. Nunca tirei férias, licença-prêmio, licença especial. Na PUC, dou aula às quartas. Na UFRJ, às quintas. No Fundão, não ganho nada, porque já me aposentei. Pago R$ 80 de táxi para ir e voltar. Ao me aposentar, achei que ia ficar mais folgada, voltar a estudar piano (ela era chamada de vituose por seu antigo professor, Lorenzo Fernandes). Mas a faculdade me puxou de volta".
Com certeza, DIVINA CLEO, você é um exemplo prá todos nós. Um exemplo de trabalho, de prestação de serviços à cultura e à sociedade, mas, sobretudo, um exemplo de dignidade humana!