26 julho 2009

A GAROTA DOS US$ 10 MIL


Achei essa reportagem na ÉPOCA (julho/2009 - nº 584) e faço questão de mostrá-la aos leitores do blog. Ela fala de GIULIA OLSSON, uma brasileirinha (apesar do nome) de apenas 14 (quatroze) anos de idade, que "criou uma ONG e vendeu limonada para arrecadar dinheiro e comprar instrumentos musicais para doar" a crianças carentes, tudo porque ela percebeu "que a música pode transformar a vidas das pessoas".

Em tempo da tanta notícia ruim, principalmente quando o assunto é a corrupção política que assola o país, a gente chega a se emocionar com gestos como o de GIULIA OLSSON.



MENINA ATIVA
Giulia na favela de Heliópolis, em São Paulo (acima), e dando aulas às crianças do Instituto Baccarelli (abaixo)


Giulia Olsson tem uma obstinação incomum para sua quase década e meia de vida. Estudante do ensino médio na Flórida, nos Estados Unidos, para onde se mudou em 2001 com os pais e dois irmãos, todos brasileiros como ela, Giulia se acostumou a praticar ações sociais voluntárias. “Na escola americana eles incentivam a fazer trabalhos e projetos comunitários, atividades em asilos, ajudar no parque”, diz a adolescente. “Mas para mim era pouco, queria fazer algo melhor.” Foi quando Giulia decidiu fazer mais que seus colegas: “Nas férias de verão do ano passado, pensei em doar instrumentos e ensinar música para crianças”. Sim, porque antes de se descobrir apaixonada por ajudar os outros, Giulia se apaixonou pela música. “Tinha 8 anos quando comecei a estudar violino e percebi que a música transforma a vida das pessoas. Eu quero passar isso para as crianças que não têm as mesmas oportunidades.” Ela estava nos EUA, mas tinha em mente as crianças carentes do Brasil.

O discurso pode parecer pronto, embalado, e soar falso para os céticos. Mas os fatos provam a boa vontade e a energia precoces da garota. Quando decidiu transformar a vida de crianças brasileiras por meio da música, Giulia organizou suas horas vagas para arrecadar dinheiro para seu projeto – e olha que vaga é o mais difícil de encontrar na agenda de Giulia. “Eu estudo até as 3 da tarde, depois nado duas horas e estudo violino mais duas horas por dia”, diz a moça. “Dá para fazer tudo, sim, é só dividir bem o tempo, focar naquilo que você quer.”

Em julho do ano passado, Giulia traçou um “plano de metas” sociais, seguido passo a passo. “Fiz um projeto dividido em duas partes. A primeira seria comprar os instrumentos. A segunda, visitar a instituição para dar aulas com os instrumentos durante as minhas férias”, diz a jovem. Giulia então fundou a ONG Notes for Hope (notesforhope.org). Fez folhetos de seu projeto para distribuir para as pessoas na rua, falou com professores e vizinhos, organizou brechós, lavou carros e economizou cachês de inúmeros concertos dos quais participou como violinista – sim, além de tudo ela toca profissionalmente. Perdeu as contas dos litros de limonada que vendeu para aplacar o calor dos outros e sua sede de caridade. “Em números não sei, mas foram muitas jarras, com certeza”, diz Giulia, entre risos. Em dez meses, juntou pouco mais de US$ 10 mil, numa respeitável média de US$ 1.000 por mês, sem ajuda financeira dos pais, de governos ou de empresas.

Enquanto levava seu projeto a cabo, Giulia pesquisava na internet uma instituição idônea e confiável. Chegou ao nome do Maestro Baccarelli, fundador do Instituto Baccarelli, que há 13 anos mantém uma escola de música para crianças carentes na maior favela de São Paulo, a de Heliópolis, na Zona Sul da cidade, sede da Sinfônica de Heliópolis. Giulia viu e ficou fascinada por Sinfônica Heliópolis e Arnaldo Cohen, documentário sobre o encontro da orquestra com o respeitado pianista. Entrou em contato com a instituição e foi recebida de ouvidos abertos. A boa ação tomou forma definitiva quando a mãe de Giulia, a brasileira Debora Olsson, veio ao Brasil conhecer de perto a escola, que atende mais de 600 jovens.

Invertendo a lógica de muitas leis de incentivo à cultura no Brasil, que financiam projetos privados com dinheiro público, Giulia transformou dinheiro privado em ação pública. Em junho, comprou 72 instrumentos de corda, entre violinos, violoncelos e viola, e conseguiu outros três, doados por amigas. Os instrumentos são especiais para a prática infantil. “Desde o começo queria trabalhar com crianças, para que elas aprendessem música ainda pequenas”, diz.

O projeto de Giulia chama a atenção não apenas pela rapidez com que foi executado, mas pela grandeza do gesto – numérica, inclusive. “Em geral as pessoas doam um instrumento herdado que está parado, dois instrumentos arrecadados. É difícil uma doação desse porte”, diz o maestro Roberto Tibiriçá, diretor artístico da Sinfônica de Heliópolis.

A retribuição do instituto para Giulia veio em forma de música. Ela foi convidada para participar de duas apresentações da Sinfônica de Heliópolis com o renomado violinista alemão Erik Shumann, na Sala São Paulo, em junho. Mas, para Giulia, o melhor reconhecimento veio das crianças com os instrumentos que doou. Durante as duas semanas que passou no Brasil, Giulia monitorou os ensaios de violino de 32 crianças, de 7 a 10 anos. Ensinou violino e inglês. “Foi emocionante, porque a única oportunidade que eles têm é com a música, e eles colocam todo o coração e a garra naquilo”, diz Giulia. Agora, ela quer estender seu trabalho para outros Estados: “Pensei em Pernambuco, que tem projetos legais, mas ainda estou vendo como fazer”. Giulia ainda não sabe se vai estudar música para se profissionalizar, mas tem uma certeza: “Quero continuar meu trabalho social, porque a sensação de ajudar é incrível”.

Sobre o Autor:
Carlos Roberto Carlos Roberto de Oliveira é advogado estabelecido em Nova Iguaçu - RJ. A criação do Dando Pitacos foi a forma encontrada para entreter e discutir assuntos de interesse geral.

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4 comentários:

  1. Depois das belas imagens das nuvens, uma beleza de atitude.

    A iniciativa da menina Giulia mostra que quando se quer, se faz!

    Ela é um exemplo de participação social. Sua atitude só serve prá demonstrar os que os políticos brasileiros poderiam fazer com a dinheirama que les vem à mão. O problema é a corrupção, a ganância, o caráter que eles não tem.

    Parabéns, Giulia. Parabéns ao blog, mais uma vez, pela postagem.

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  2. Bela matéria da Época! Parabéns ao Carlos por postá-la aqui. A menina é um exemplo do que se poderia fazer pelas crianças não só brasileiras, mas do mundo inteiro, se houvesse um interesse real. Se os políticos fossem menos corruptos as nações poderiam destinar enormes recursos para o financiamento de iniciativas como essa.

    Bravo, Giulia!

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  3. luiz antonio peixoto junior1 de janeiro de 2010 21:53

    o homem deve trabalhar 24 horas por dia na busca contínua e incessante do bem,pois todo homem recebe de volta exatamente aquilo que pratica o bem ou o mal !
    muito linda a atitude dela!
    espero que isso sirva de exemplo para os políticos corruptos que só praticam o mal !

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  4. Joceli Souza Santos

    Ela mostra que realmente o exemplo de querer e acreditar que se pode ajudar alguém a ter a esperança de sonha só nos faz melhorar nossas existencias e não existi idade.

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